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Entrevista
Em busca de um ensino digno à população

Arnaldo Niskier, um dos principais especialistas brasileiros em educação, é escritor – membro da Academia Brasileira de Letras (ABL) – educador, professor, jornalista. Atualmente, preside o Conselho de Comunicação Social do Congresso Nacional e é secretário de Cultura do Estado do Rio de Janeiro. Sua obra na área da educação ultrapassa os 50 títulos, entre os quais se destaca Educação brasileira: 500 anos de história(1500-2000). Há alguns anos, Niskier resolveu investir na literatura infanto-juvenil. Desde então, publicou cerca de 30 livros, alguns dos quais posteriormente adaptados para o teatro com grande sucesso. São dele O dia em que o mico-leão chorou, O grito do Guarapiranga e Maria Farinha. Com base em toda a sua experiência, é um entusiasmado defensor do ensino à distância, mesmo antes do surgimento da internet, quando os correios e a televisão eram os únicos veículos disponíveis. Sobre o ProUni – o Programa Universidade para Todos, que dá bolsas para alunos carentes no ensino superior privado e teve 798 mil candidatos este ano –, diz que é uma boa iniciativa e acredita que vai dar certo.


Como o senhor avalia o atual estágio da educação brasileira?

Estamos numa fase negativa. A qualidade é altamente precária, com exceção da pós-graduação. E há um fenômeno incrível: estamos perdendo alunos em todos os graus de ensino, revelando um fenômeno complicado para ser revertido.

Qual o caminho para eliminar os problemas?

Vontade política. O governo, aliás desde o anterior, faz muita "firulagem" com os problemas educacionais. Resolver que é bom, nada. Faltam recursos e uma qualidade compatível com os desafios brasileiros. Faz-se muita propaganda, mas na prática estamos atrás de países como a Argentina, o México e o Chile, o que é desonroso para nós.

Nunca se falou e escreveu tão mal a nossa língua portuguesa. Há quem "disponibilize café" em vez de oferecer café, os que dizem "não vou estar tendo" em vez de dizer que não têm determinado produto e tantas outras aberrações. O pior é ouvir professores, tanto do ensino fundamental e médio quanto do ensino superior, usarem esse tipo de linguajar. A que o senhor atribui esse triste fenômeno e o que pode ser feito para tentar reverter a situação?

É verdade que não se capricha tanto quanto se deveria, no falar e no escrever a nossa língua. Uma parte deve-se à televisão, especialmente novelas, que, a pretexto de simplificar a linguagem, na verdade, ensinam errado. Outra parte é o despreparo colorido dos mestres. Eles não aprendem corretamente nas universidades, não podem transmitir a norma culta para os seus alunos. Isso só se resolve com uma enorme cruzada em favor da língua portuguesa e o uso intensivo de bons livros de língua portuguesa.

O senhor vê alguma relação entre os altos índices de violência, especialmente na faixa etária de 18 a 25 anos, e a má qualidade do ensino público de primeiro e segundo graus?

A violência entre os jovens tem várias causas. Não é só o ensino precário. As relações com os pais, em geral, estão deterioradas e o papel da religião não é suficiente para cobrir a busca de melhor conduta. Junte-se a isso tudo a falta de emprego, ou estágio, e aí estará formado o caldo de cultura das dificuldades hoje enfrentadas pelos jovens.

Há 50 anos fazer um curso superior era meio caminho andado para garantir trabalho e uma vida digna. Hoje, não é mais assim. O que aconteceu?

O Brasil cresceu, a educação massificou, mas a qualidade piorou. Isso é mais que evidente.

O senhor, há anos, é um defensor do ensino à distância. Por quê?

Trata-se de modalidade consagrada no mundo desenvolvido, onde faz sucesso há muito tempo. Exemplo: Austrália, Canadá, Inglaterra, Espanha, Israel. Ela funciona muito bem nesses países.

Como será feita a avaliação dos alunos nesse tipo de ensino?

De forma presencial, com o uso de universidades federais espalhadas em território brasileiro. Para evitar o facilitário extremamente perigoso. Toda a avaliação deve ser presencial e acontecer em diversos períodos do tempo de estudo, com uma prova final. Isso faz a diferença entre um curso sério e uma picaretagem.

O ensino à distância, um dia, poderá substituir o ensino presencial?

Não, vai partilhar. É assim que está ocorrendo nos Estados Unidos. Há universidades norte-americanas que dividem o alunado meio a meio, com proveito geral. Vi uma experiência notável, num estágio que fiz na Nova University, da Flórida.

A universidade aberta é viável no Brasil?

Sim, e está caminhando celeremente para funcionar a partir de 2006. É um benefício que demorou muito a surgir. Lembro que, no início de 1970, por sugestão do então ministro Jarbas Passarinho, fiz parte de um grupo de trabalho dirigido pelo educador Newton Sucupira, recém chegado de Londres. Houve 12 reuniões, mas no final não se conseguiu criar a universidade aberta. Especialistas do Ministério da Educação exageraram na dose. Agora, tudo chega na proporção devida – e teremos o benefício em andamento.

Qual a sua opinião sobre o ProUni?

Sou favorável e penso que vai dar certo.

O senhor preside o Conselho de Comunicação Social do Congresso Nacional, que tem em sua pauta, entre outras questões, a televisão digital no Brasil. Qual é, na sua opinião, o melhor modelo para o Brasil? O que mudará na vida dos cidadãos?

A TV Digital funcionará em 2006 no Brasil. Certamente na Copa do Mundo da Alemanha já estarão sendo feitos alguns testes. As ferramentas a serem utilizadas é que ainda não estão decididas, podendo ser norte-americanas, européias ou japonesas. Tenho defendido sempre no CCS (Conselho de Comunicação Social), em Brasília, que haja um grande proveito pedagógico com esse avanço tecnológico. A educação precisa muito disso.